Biblioteca II

Parecia uma chave pequena para uma porta tão grande, mas funcionou perfeitamente. Girei a maçaneta e a velha porta de madeira entalhada abriu vagarosamente rangendo as dobradiças. Entrei e passei a chave na porta novamente, não por egoísmo, mas se mais alguém quisesse pegar algum livro, que fosse encarar a miudinha assim como eu havia feito.

Fui até os contos, mas para desgosto meu, o Sabino que eu queria não estava-lá. Resolvi partir para os policiais, dando uma paradinha nos "clássicos" da literatura brasileira, sempre olho mas nunca levo pra casa, já me bastam aqueles que tive que ler na escola. Logo ao lado ficam as poesias, sempre dou uma olhada também, algumas são curtinhas, da até pra guardar na memória, certas garotas gostam de ouvir... E finalmente os policiais!

- Hey Agatha! Quanto tempo! haha

"Não tem nada de mais falar com os autores quando se está sozinho na biblioteca". Fazia mesmo um bom tempo que não lia um policial, o que triplicava minha indecisão. Olhei para o relógio, duas e quarenta e oito, ainda tinha algum tempo. E nisso, fiquei de lá pra cá naquele corredor, sem saber qual escolher. Ia passeando com o dedo pelos títulos sem pensar em mais nada. Que burrice! Acabei trombando com uma garota que vinha na direção contrária. - Ouch! De-desculpa!

Ela se recompôs, foi um belo de um encontrão.

- Não foi nada.

"Mas pera lá!". Pensei.
- Como você entrou aqui!?

- Eu já estava aqui...- desconversou - Ei! Você não viu um livro com uma capa vermelho-sangue e letras douradas? Chama...chama...não sei como chama, afinal.

- É... não vi não. - "Que doideira", eu não estava entendendo nada, mas uma coisa eu digo, que garota linda! Usava duas trancinhas no cabelo, um vestido simples e uma sandália rasteira, assim que se chama acho. Não sei dizer ao certo, mas era como se fosse a garota dos meus sonhos (que ironia).

- O tempo tá passando e eu ainda não encontrei o livro. - Parecia preocupada, ou seria assustada?

- Eu ainda não sei qual escolher, então... se você quiser posso te ajudar.

- Ótimo! Vem comigo.

Me agarrou pela camiseta e fomos saindo do corredor policial em direção a área das mesas de leitura. Chegando lá, haviam vários livros espalhados, parecia que quando uma mesa já não bastava a pessoa foi mudando para a mesa ao lado...  Estávamos bem próximos da última mesa, então sussurrou para mim: - Aconteça o que acontecer, não grite!

"Mas hein?". Ela afastou a "torre" de livros sob a mesa e fez sinal pra que eu olhasse lá atrás...

- Mas o que que é iss... - Ela tampou minha boca.

- Shhh!

Eu não podia acreditar! Ali naquele canto escuro, escondido pelas mesas e aquelas pilhas de livros, estava nada mais nada menos que o corpo de um homem, envolto por papéis rabiscados e uma poça de sangue. Estava caído de lado, ainda com os olhos abertos e uma caneta na mão direita. Quase passo mal, mas desviei o olhar a tempo.

- Ele era investigador de polícia... - Disse ela dando a volta na mesa indo agachar-se ao lado do morto.

- E como você sabe? - Disse eu do outro lado da mesa.

- Ele me disse, oras.

- Então você conhecia ele? Como se chamava?

- Não sei. A gente só estava juntos nessa... Olha ali. - Apontou para debaixo de uma das cadeiras da mesa.

Era um revólver prateado, não entendo de armas pra dizer qual era, digo o calibre e essas coisas. Posso dizer que era muito bonito, para um revólver.

- Foi como ele morreu, três tiros.

- Não me diga que você... - Recuei um passo, e ao mesmo tempo ela se levantou lançando-me um olhar furioso.

- Claro que não!

"Ufa!", pensei já me acalmando.

- Tem um assassino neste saguão. O investigador estava tentando detê-lo, mas como você pode ver... - Por um momento achei que ela iria chorar, mas não o fez. - Cheguei a pensar que tinha ficado sozinha, mas agora que você apareceu a gente ainda pode dar um jeito! Só precisamos achar aquele livro.

- Na verdade, a bibliotecária está na sala de estudos. A gente deveria ir até lá e ...

- Claro! - Ela me pareceu um pouco irônica ao dizer isso. - Você tem a chave?

- Óbvio que eu ten... sumiu!

- Pois é... - Ela riu gostoso, e eu ali sem saber da chave.

Deu meia volta e saltou por cima do morto, de baixo da cadeira retirou a arma com cuidado. Então segurou bem na frente dos olhos, parecia nunca ter visto uma arma de verdade.

- Você não devia pegar isso aí... É a arma do crime...

- E daí? A gente precisa de alguma coisa pra se defender em caso de ele aparecer. Olha, pega a caneta pra você!

- O que é que eu vou fazer com uma caneta, me diz. Rabiscar o cara até a morte?

- Aí eu já não sei... haha. Mas não se preocupe que eu te protejo. - Disse isso enquanto fazia pose com o revólver, não pude conter minha indignação, mas acabei ficando com a caneta que ela me jogou, pelo menos era uma Bic.

...