Ocasião...

Não aguentava mais aquele velho lecionando, talvez nem seja culpa dele, mas aquela matéria era um verdadeiro calmante. Resolvi tomar um ar antes que adormecesse em cima da carteira. Fui direto ao pátio da escola e, para minha surpresa, ela estava sentada num banco próximo da cantina, resolvi lhe fazer companhia.

Ficamos conversando, estudamos na mesma escola durante o ensino fundamental, embora não tenhamos nos conhecidos naquela época, viemos a nos conhecer no médio, mesmo estando em turmas diferentes. "Vinte para as quatro da tarde", já havia matado um bom tempo, fiquei em dúvida se voltaria para aula ou não.

- A..agora são vinte para as quatro? - Perguntou com um olhar preocupado - Eu tenho uma consulta às quatros horas !

- Que!? E vem me dizer isso só agora? - "Tonta!", pensei, "É liberada duas aulas mais cedo e ainda consegue se atrasar", no entanto, não consegui deixar de ficar preocupado. - Onde você tem que ir?

- Fica na avenida, perto do shopping... Será que da tempo de pegar um ônibus?

Ônibus naquele lugar era imprevisivel, nunca soube os horarios que passavam. Sempre atravessei a avenida voltando para casa, até lá levava cerca de quinze minutos em meu ritmo, imaginei se levaria o mesmo tempo numa direção diferente.

- Bom, se você ir a pé creio que de tempo.

- Ah... mas eu não sei o caminho a pé.

- Se quiser eu levo você, já matei bastante tempo de aula mesmo...

- Leva mesmo!? - Naquele momento um sorriso apareceu no meio da nuvem de preocupação - Mas, não vai ficar ruim pra você depois?

- Não não, passo lá perto todos os dias. - Passava perto do final da avenida, onde era bem mais facil atravessar, sem falar que iria me encher de subidas no caminho pra casa, mas como eu poderia recusar tal sorriso?

Voltei para a sala de aula pegar meu material, entrei esperando algum tipo de bronca, mas nada, o velho só olhou para mim e continuou a fazer anotações no quadro negro, certamente eu teria de copiar muita coisa depois. Peguei minha mochila e meu caderno nas mãos e sai sorrateiramente.

- Ei! Onde você vai? - Perguntou meu colega.

- Amanhã eu te conto!

Ela estava me esperando no portão de saída, da qual um guarda mau encarado apenas barrava entrada de gente sem uniforme, mas quanto a saída, ele era indiferente. Aliás, aquela escola realmente só se importava com os resultados em prova, não era nenhum tipo de prisão.

- Vamos! - Fui recebido com um sorriso encantador, coisa que só ela mesmo sabia fazer, presente o suficiente por perder uma "importantíssima" aula teórica de processos industriais.

Saimos em passadas rápidas, não havia tempo a perder. Logo após o primeiro quarteirão, uma enorme subida, mas nem metade dela foi necessário para cansa-la.

- Affe... vamos um pouco mais devagar?

- Se não andarmos rápidos, não posso te dar certeza de chegar a tempo.

- Ahh, você não cansa não?

- Nos primeiros dias que subi isso cansei sim, mas depois acostuma. - Reparei na mochila branca, enorme, que ela carregava. - Não quer que eu leve a mochila?

- Não, não precisa não, está tudo bem.

- Ah! Então eu te empurro! - Eu não havia pensado muito sobre aquilo, talvez eu devesse ter insistido em levar a mochila.

Comecei a empurra-la pelas costas, nem mesmo reparei se as pessoas ficavam olhando, mas estavamos indo num belo ritmo, e o melhor: estava me divertindo, nem demorou para ela começar a rir também. Antes que percebessemos, já haviamos terminado a "escalada".

- Hahaha! Obrigada pela... hmm... ajuda. - No final, não era só eu quem estava se divertindo, mas com certeza eu jamais deixaria alguem me empurrar daquele modo.

Atravessamos uma rua um tanto movimentada, depois contornamos o quarteirão até uma pequena praça. Era uma bonita praça, bem simples, formato retangular, com sete pinheiros espalhados próximos as ruas, um banco em cada extremo, e uma cabina telefônica. Calculei ali como metade do caminho, olhei para o relógio, tinhamos apenas seis minutos, peguei a mão dela e comecei a correr.

Uma atitude impensada. Quando me dei conta, fixei meu olhar para frente, fiquei meio encabulado, mas não soltei a mão. No entanto, depois de um tempo ela parou.

- A gente está parecendo um casalzinho... - Ela soltou minha mão, não olhei muito para ela, apenas concordei com a cabeça e continuamos a correr.

Não demorou para chegarmos a avenida, uma corrida em tanto, chegamos exaustos.

- Chegamos bem em cima da hora. - Faltava menos de um minuto, se não tivessemos corrido não chegariamos a tempo. - Para qual direção fica o consultório?

- É indo para lá.

- Bom, então acho que aqui nos despedimos...

Ela sorriu levemente, então me aproximei para dar um beijo de despedida... Ela me segurou, ou melhor, me abraçou, envolvendo os braços na altura do abdômen e aconchegando seu rosto em meu ombro esquerdo. Fiquei realmente surpreso, a abracei por cima de seus braços, pude sentir sua respiração forte e descompassada. Era como se ela tivesse soltado seu peso sobre mim, e ainda assim ela estava leve, parecia que se ficassemos mais alguns minutos daquele jeito ela adormeceria.

- Você vai se atrasar... - Infelizmente lembrei do compromisso.

Ela se compoz, deu um breve suspiro e em seguida sorriu. Satisfeita talvez, aquele sorriso me transmitia algo que não pude identificar.

- Obrigada!... Tchau, até amanhã!

Ainda estava bobo com o ocorrido, mas devia ser apenas força do cansaço, em qualquer caso, eu ainda tinha uma boa caminhada.