Um guarda caminha pelo corredor da morte, onde supostamente já não há nenhum criminoso. Tamanha sua surpresa ao encontrar comigo na última cela, sim eu mesmo.
- Ora, mas quem é você!?
- Ora, mas quem é você!?
Ele olha sua prancheta, confirma com a cabeça, escreve qualquer coisa resmungando baixinho e segue sua ronda sem questionar mais nada. A pergunta chave sem dúvida seria: “O que você está fazendo aqui?”. E embora o guarda pareça não estar interessado, é disso que se trata.
A verdade é que nem eu mesmo sei como entrei nesse buraco, tenho a impressão de que de um dia para o outro eu passei a ver o Sol nascer quadrado, simples assim.
- Eu quero que você suma daqui! – Foi o que pensei naquela vez. Seria isso algo próximo a um assassinato?
- Só mais um pouco, essa será a ultima vez, eu juro. – Talvez eu estivesse viciado em algum tipo de droga.
- Quero mesmo que tudo e todos se explodam! – Isso com certeza é uma perturbação da ordem pública.
- Eu acho que não acredito mais, há provas por toda parte. – Ah, esse sim foi meu maior crime.
E aqui estou.
No final do corredor posso ouvir os passos apressados do guarda novamente. Ele para diante da minha cela, tateando os bolsos até encontrar um molho de chaves prateadas.
- Então, chegou a hora da execução? – Que mais eu poderia perguntar naquelas circunstâncias?
Ele riu.
- Alguém pagou sua fiança.
- Mas isso não é o corredor da morte? Aquele cujos crimes são inafiançáveis, e se paga com a vida?
- É sim, porém eu apenas cumpro ordens. E nesse caso meu amigo, a ordem vem de cima, entende?
Eu ri.
- Sim, meu amigo, eu entendo muito bem.
Lá fora o imenso portão de aço se abre diante de mim, como se eu fosse apenas um visitante, um hóspede de fim de semana.
Posso ver claramente um carro estacionado logo à frente a me esperar. Um homem cuja confiança foi restituída, uma mulher com um coração corajoso, e um garoto arteiro enviado a meu pedido há tempos atrás.
- O que estamos esperando? A viagem é longa e já perdemos tempo demais.
Mal posso conter minha felicidade.
Todos juntos novamente.
