Um corredor estreito que a primeira vista daria em lugar algum, talvez este seja justamente o propósito de sua forma, afinal aonde este corredor termina começa um pedaço de terra cheio de possibilidades. Este terreno tem dono, mas confesso que nunca o vi pessoalmente, na verdade aquele lugar para mim sempre foi e sempre será “Lá atrás da casa”.
- O pai e a mãe foram viajar! O que a gente vai fazer Lucas?
- Não sei...
- Eu acho que a gente devia ir atrás deles! Lá atrás da casa na África.
A grama e o mato selvagem crescem com liberdade, enquanto a horta se tranformou em um canteiro de flores que lutam contra as ervas-daninhas por conta própria. Enquanto isso as árvores buscam o alto, como que para tentar esquecer quem um dia as plantou. Balançam com o vento, e suas folhas produzem uma melodia para aqueles que querem ouvir. Uma melodia triste, de saudade.
Maior é a solidão do abacateiro, cujos braços ainda seguram com força as cordas arrebentadas do balanço, e seu tronco ainda guarda as marcas das estacas que juntas formavam uma escada para sua copa. A noite ele range, enquanto despeja seus frutos sob a terra, cansado de esperar que alguém venha colhê-los.
No limite da terra uma cerca impede que gente de fora entre, mesmo o barranco sendo alto, não é impossível de se escalar. Porém a visão dali de cima é bem diferente daqueles tempos atrás. Uma cidade nova e velha ao mesmo tempo, os fantasmas que percorrem o terreno do fim do corredor não são muito diferentes daqueles que ainda passeiam pelo bairro.
- Quem foi que quebrou o cabo da enxada?
- Não acredito que vocês tão desenterrando o gato!
De todos os tesouros e segredos enterrados, de todas as árvores, de todos os frutos, toda diversão e fantasia, o que havia de maior valor parece ter desaparecido: nós... ele.
- Vamos ajudar o Vô moer cana?
