Lunasa.

  O salão de entrada sem dúvida não era de se jogar fora, um lustre repleto de cristais pendia no centro do teto, enquanto dois lances de escadas perpendiculares, feitas de uma madeira escura, faziam a ligação com o primeiro piso.  De ambos os lados havia portais, ligando as alas leste e oeste, e no centro logo à frente da entrada, por entre as escadas, uma grande porta dupla, entalhada com desenhos que não fui capaz de distinguir áquela distância.


  O chão de taco estava coberto por tapetes empoeirados, quando não somente por uma grossa camada de poeira. E pilhas de móveis se acumulavam nos cantos do salão, muitos cobertos com lençõis brancos e amarelos, dificil saber se não foram todos brancos um dia. Isso, combinado com os feixes de luz vindos dos vitrais da fachada, davam ao salão um ar melancólico, era agora a sombra do que um dia já foi...


  Parece que perdi todo o discurso técnico e histórico da Sra. Margot, enquanto fazia minhas próprias observações, nada mal.


- Bem bem, vamos pela ala oeste, há um cômodo em especial que gostaria de mostrar ao senhor. É magnífico, espere só para ver.


- Se a senhora está dizendo, eu acredito. – Mentira?


 O corredor da ala oeste possuía três portas laterais e uma quarta em seu extremo, era ilumidado por um teto de vidro decorado e sustentado por arcos de madeira entalhada. Segui a corretora até a porta localizada na extremidade do corredor, onde ela parou e começou a procurar a chave dentre várias em um molho.


- Aqui está, prepare-se Sr. Owen. – Girou a chave e a fechadura fez um estalo, logo a porta se abria com o próprio peso.


- A Biblioteca!


  Dois pisos repletos de livros coloriam as paredes do cômodo circular, sob a luz de dois grandes vitrais que subiam até o encontro da cúpula no teto, esta decorada com nuvens brancas em um céu azul profundo.


- Atchin!


- Saúde, Sra. Margot.


- Receio que este não seja o cômodo mais adequado para mim, os livros estão aqui há muito tempo, sabe, e eu te... tenho... atchin! Se me permite, vou até meu carro buscar alguns lenços de papel, mil desculpas Sr. Owen, mil desculpas.


  Quem diria... Seria engraçado se não fosse trágico, o rosto da corretora ficou todo vermelho e parecia que dali a pouco começaria a lhe faltar ar.


- Não tem problema, eu espero aqui.


- Oh, obrigada! Muito obrigada.


  Vejo a corretora seguir pelo corredor da ala oeste apressada tentando conter sua reação alérgica. Silêncio. Há alguém me observando.


- Quem est...


  Uma garota. Uma garota de preto. Eu vi. Pisco os olhos. Foi-se, estava próxima a escrivaninha empilhada de livros, juro que estava.


- Sr. Owen, tudo certo. Vamos prosseguir?


- Me desculpe, Sra. Margot, uma garota, de preto, estava ali próxima da escrivaninha.


- Oh, minha culpa, na euforia acabei esquecendo-me de mostrar-lhe os quadros que originalmente ficavam ao longo do corredor. Estão todos aqui atrás da escrivaninha.


- Quadros?


- Pois sim. – Ela empurra as pilhas de livros, e protegendo o nariz com um lenço, puxa uma das molduras ocultas pela mesa. – Novamente um olhar observador, Sr. Owen, é sem dúvida uma obra prima.


- É sem dúdida que sim. – O quadro ilustrava uma garota em trajes negros, tocando um violino com uma expressão séria.