Phantom Ensemble.

  A corretora ficou em silêncio durante todo o percurso da ala leste até a majestosa porta de madeira no centro do salão de entrada. À medida que nos aproximamos, os entalhes da madeira ficam mais e mais visíveis.

  Em frente à porta, não restam dúvidas. Quatro garotas de mãos dadas formando um círculo sorriem em meio às flores de um jardim, com notas musicais pairando ao seu redor... É fácil imaginar a melodia.



- Bem, aqui estamos Sr. Owen, eu teria deixado este cômodo por último, nada pessoal, mas sem dúvida este é o tesouro da mansão.


- Imagino, do que se trata?


- Ora, este é, pois o Salão Nobre. Ah, como gostaria dissertar um pouco sobre esta parte da casa. – Ela parece desapontada. – Mas parece que o senhor já tem uma opinião bem formada.


- Exatamente, Sra. Margot. Sinto muito.


- Não há problema, não senhor. De qualquer maneira, veja com seus próprios olhos.


  Ela segura as maçanetas douradas com ambas as mãos, e as pressiona para baixo. Mas não ouço o som da fechadura, ouço um acorde. E depois disso uma luz, diria ser uma luz fantasmagórica, mas não, era bela demais para ser descrita assim.

  O Salão Nobre era resplandescente, nas laterais estendiam-se fileiras de janelas paralelas entre si, decoradas com cortinas esvoaçantes. Grandes lustres de cristal, semelhantes ao salão de entrada pendiam das abóbodas, e o piso de mármore branco era como um grande espelho que duplicava a beleza do lugar. 

  No centro, uma grande mesa de carvalho com inúmeras cadeiras se estendia até a extremidade do salão onde se encontrava uma pequena elevação, como um palco, guardado por um vitral imenso e decorado com a figura de quatro garotas.


- Outro acorde, ouviu Sra. Margot? – Ela já não está comigo.


  Silencio.


- Mas que... – Outro acorde.


  Num instante, todas as cadeiras estão ocupadas por figuras pitorescas vestidas em trajes de gala, servem-se de um banquete que jamais esteve sob a mesa, um banquete fantasma.

  Na extremidade da mesa, vejo uma senhora bastante idosa, que caminha em minha direção, atravessa a mesa como se não existisse e conforme se aproxima, sua velhice desaparece. Dali a pouco está à minha frente, uma bela jovem de cabelos castanhos e olhos da cor da noite, vestida como se fosse uma princesa, a anfitriã.


- Sou Layla Prismriver.


- Eu eu eu.... Owen... U. N. Owen... Ma ma mas...


  Ela sorri, e então se vira para a multidão, estende os braços e anuncia.


- Já podemos começar!


  No palco o vitral está vazio, e três garotas parecem ajeitar seus instrumentos. São elas, sabia que não estava enlouquecendo. Outro acorde. Elas olham entre si e fazem um sinal afirmativo. Todos se levantam e aos pares caminham para as laterais do salão.


- Dance comigo.


- Receio que não esteja vestido apropriadamente... E eu também não sei...


- Shhh. Você é o convidado de honra.


  Caminhamos até a frente do palco. Silêncio. Paz. Magia talvez. E a música começa.





  A música mais bela que já ouvi, um sonho, certamente que era. Todos aqueles rostos irradiavam felicidade, dançando como se jamais pudessem dançar ao som daquela música outra vez.


- Minhas irmãs se foram, mas eu permaneci. Sabia que de alguma forma elas ainda poderiam estar aqui comigo... Merlin, Lunasa e Lyrica.


  Escuto atentamente.


- Após tantos anos chegou a minha hora, e posso ouví-las novamente... estavam aqui o tempo todo!


  Uma lágrima escorre em seu rosto, mas ainda sim ela sorri, lágrimas de felicidade.


- Owen, você mal me conhece, mas faço-lhe um apelo.


- Diga.


- Por favor, não nos deixe partir. Permaneça. E um dia, quem sabe, poderemos dançar ao som desta música uma outra vez.


- Eu... eu...


  Por um instante as luzes se apagam, e me vejo cercado por um grande salão, não há cortinas, nem uma mesa de carvalho, apenas poeira, cadeiras empilhadas e lustres sem brilho, além de um velho piano abandonado sob um palco frente a um vitral opaco de desenhos pouco reconhecíveis.


- Vejo que o senhor ficou mesmo impressionado, Sr. Owen. Eu também me impressiono toda vez que passo por aquela porta. Mas, talvez seja hora de irmos, sim?


  A corretora. Estou de volta. Ainda há tempo.


- Eu compro.

- Como disse? Sr. Owen?


- Eu compro. Ficarei com a mansão.


  A Mansão Prismriver, permanece.