Lyrica.

  A ala leste era idêntica a oeste, como se fosse um reflexo. Com a exceção de que esta ainda conservava os quadros devidamente ordenados ao longo do corredor. Não pude deixar de notar um muito semelhante àquele que vi na biblioteca.


 Uma garota, vestida de vermelho, em meio às flores de um jardim, com uma expressão da mais pura felicidade. No extremo do corredor também não havia uma porta como na ala leste, apenas a entrada para um cômodo amplo e arejado.



- A sala de estar! Talvez também fosse utilizada como sala de música e lazer, havia um piano ali naquele canto, sabe? A antiga dona mandou removê-lo para outro cômodo pouco antes de falecer, pobrezinha.



  Enquanto a Sra. Margot desatava a falar, voltei a fazer minhas próprias observações. A sala de estar era vasta e muito bem iluminada por janelas e uma porta de vidro ligada a uma varanda de frente para o antigo jardim dos fundos, os móveis estavam todos empilhados e cobertos assim como no salão principal, mas esse era o cômodo aparentemente mais bem preservado.



- [...] E então acabaram recolocando o piano no salão nobre, a contragosto claro, mas era a vontade da falecida.



- Entendo. Mas isso não afetou de maneira alguma o ambiente por aqui. É uma pena que o jardim esteja tão... – Fico paralisado. Lá! No jardim! A garota de vermelho! 



- Ah, compreendo, é o problema dos jardins, não? São totalmente dependentes daqueles que os cultivam.



- Sim, sim! Mas não é isso! A senhora não a viu?



- Evidentemente que sim, mas a pobrezinha já estava muito enferma, receio que já não podia mais cuidar dos jardins como antes.



  Devo estar ficando louco, e a ignorância dessa mulher só piora meu raciocínio, é melhor acabar com isso de uma vez. Já é tarde.



- Olha Sra. Margot, vou ser sincero, não há necessidade de continuarmos com essa visita, ainda há muito para ser visto, estou começando a me atrasar para outro compromisso, e ainda não tenho nenhum interesse em comprar esta mansão.



  Ela parece surpresa, acho que confia demais em seu taco para aceitar que não conseguiu convencer um cliente.



- Oh, eu... Entendo. Bem, talvez eu possa fazer um último esforço? Não me entenda mal, Sr. Owen, não é pela minha comissão nem nada, só acho uma pena ter de vender essa preciosidade apenas para ver destruirem-na logo em seguida. Uma pena...



  E lá vamos nós.



- Tudo bem, mas somente mais um cômodo, sim?



- Estamos de acordo.



   Na volta pelo corredor da ala oeste não posso deixar de reparar novamente no quadro da garota de vermelho, desta vez é quase possível ouvir uma melodia alegre e contagiante tocando ao fundo naquela cena... É o som de um piano.