Cheguei com pressa à biblioteca municipal, queria pegar o próximo ônibus pra casa sem falta, era sábado e os itinerários são escassos. Entrei pela porta de vidro e fui direto ao saguão principal, mas a grande porta de madeira estava fechada. Tentei girar a maçaneta, mas estava realmente trancada.
Consultei o relógio, duas e trinta e cinco, sem dúvida era para o saguão estar aberto... Apesar disso, a porta da sala de estudos estava aberta, muito embora fosse fim de semana. Havia alguma coisa errada, mas eu queria mesmo era pegar algum livro, então resolvi ir até la ver se descobria porque é que o saguão estava fechado, aparentemente sem motivo algum.
- Chorando se foi ~ quem um dia só me fez choraar... chorando estará ao lembrar de um amor ~
Cantarolava baixinho a bibliotecária atrás do balcão. Era uma das funcionárias com quem eu menos conversava, uma mulherzinha miúda que sempre andava com o cabelo desarrumado e a língua muito bem afiada, sequer sabia seu nome pois, entre outros infortúnios, nunca me deixava levar dois livros de uma vez.
Segurei o riso, e meio sem jeito interrompi sua cantoria: - Hmm, a senhora sabe me dizer porque o saguão está fechado?
A coitada quase caiu da cadeira de susto, mas logo se recompôs. Ficou me encarando um tempo de um jeito muito estranho, mas vindo dela, que pra mim já era meio doidinha, talvez fosse algo normal.
- O saguão não irá abrir excepcionalmente hoje, por motivos que...hmm.... não sei lhe dizer o motivo exato.
Deu aquela risada de bibliotecária solteirona... recuei um passo, me deu um certo medo.
- Puxa vida, eu queria muito pegar algum livro hoje... será que...
Eu ia fazer um drama pra ver se ela quebrava o galho, mas antes disso ela me interrompeu, como se tivesse tido uma grande idéia:
- Espera! Deixa eu ver sua carteirinha.
Tirei a carteirinha do bolso e estendi para ela, que agarrou num piscar de olhos enquanto remexia numa papelada do balcão.
- Vamos ver...hmm Rocha... Junior. Hmm certo certo.
Levantou de sua cadeira giratória e caminhou até um armário velho ao fundo, não pude ver ao certo, mas logo ela estava de volta com um livro capa dura, não tinha título na capa, somente um símbolo que parecia ser uma ampulheta, assim como o símbolo do infinito.
Ela abriu-o diante de mim, e girou várias páginas de uma vez, na verdade aquele parecia ser um livro de registros, cheio de assinaturas e datas. Quando encontrou a última página escrita estendeu me uma caneta:
- Assine.
Não pude deixar de reparar que as assinaturas tinham um certo padrão, sendo uma a cada ano, enquanto que os nomes eram todos diferentes.
- Vamos, você quer pegar alguma coisa ou não? Eu tenho outras tarefas para terminar.
Não me pareceu nada de mais, apenas um pouco burocrático, nunca precisei assinar nada para retirar um livro antes.
- Tudo bem, eu assino.
Feito. Ela fechou o livro num baque que levantou poeira, e o colocou junto às suas papeladas, abriu uma das gavetas do balcão e de lá retirou uma chave.
- Toma aqui, é a chave do saguão. Vamos fechar no horário de sempre, por isso fique atento. Traga o livro aqui que eu vejo a data de entrega, ok?
- Ok. Hmm, obrigado.
Peguei a chave e fui saindo, pela primeira vez a miudinha tinha me feito algo de bom, era mesmo um dia estranho. Assim que cruzei a porta ainda ouvi ela gritar: - Não esqueça de trancar a porta quando estiver voltando, e me traga a chave!
Depois disso voltou a cantarolar sua música preferida, pelo menos eu acho que tem tudo haver com ela...
